Textos

Onde é que a escultura em cerâmica, encontra os caminhos de intersecção entre a geometria e a arquitetura? E em que medida aquilo que deteto neste cruzamento, e que cristaliza sobre a forma de objeto, se consubstancia numa obra de arte com uma poética própria com o potencial de sensibilizar e questionar? Como poderá a dinâmica do jogo formal, em que os planos se tornam formas e dão origem a volumes que se expandem e interrogam o espaço circundante, transformar-se em emoção?

Estas são as perguntas fundamentais que guiam o meu trabalho em cerâmica. Na investigação serial que daqui decorre surgem propostas escultóricas que procuram materializar um olhar e uma emoção.

Cada peça é parte de um contínuo espácio temporal cujo fluxo anima a dialética arquitetura/geometria. Cada objeto que emerge é autónomo, existe em si mesmo, mas é simultaneamente parte de algo que o precede e a que dará origem. 

A importância do “Fazer” (o quotidiano no estúdio, na oficina) como método, para o processo criativo, a matéria como recurso formal para uma estética sempre “in progress” e a arquitetura como universo para uma pesquisa em busca de formas a materializar, são aspetos determinantes.

Há uma certa clausura no estúdio. Não se trata aqui do monge que se encerra na sua cela em meditação, mas do explorador curioso e desperto que sempre olha observando.
Nos detalhes de edifícios, nas faixas de luz que se insinuam pelas janelas e nas sombras que se projetam nas paredes criando a ilusão de volumes, estão as formas que vão criando um vocabulário.

O barro é chão. Possui uma dimensão simbólica que sempre se insinua. É terra. Está presente, manifesta-se quase como se fosse vivo. 

O barro possui qualidades plásticas insuperáveis embora tidas como banais com demasiada frequência. Pode ser tudo, pode-se tornar em qualquer coisa mas nem sempre parece querer obedecer. E não é apenas a tradição que constrange o criador, a própria matéria parece querer impor a sua vontade. No forno, as linhas retas curvam-se e os planos empenam, como se a temperatura e a terra (barro), unissem esforços para me fazer fracassar. A lastra, técnica frequentemente usada para a realização destas peças, está sempre sujeita ao julgamento do fogo. A superfície, a textura, que é neste caso, a da própria pasta, frequentemente sem vidrado, é trabalhada nas diferentes fases da secagem de modo a criar os planos rigorosos e angulares. 

Antes, estão as coisas ao redor, estão as coisas no mundo. São luz ou sombra, volumes geométricos escondidos na neblina do olhar, ou ilusões momentâneas proporcionadas por um olhar ingénuo, incauto seguramente. Mas este olhar, como tudo o resto, cresce e matura. Perde-se a inocência, a pureza, mas adquire-se, mesmo que venha apenas a funcionar ocasionalmente, o poder da escolha e a perspicácia da busca. 

Na série Arquitetura e Geometria, por exemplo, a linha e o plano criam objetos geométricos que são ubíquos na obra arquitetónica sendo que esta é, obviamente, muito mais que uma assemblage de cubos e paralelepípedos, cones e pirâmides. Frequentemente, o objeto escultura está já num pormenor de uma fachada, na projeção da sombra sobre uma parede ou nos elementos estruturais que suportam um edifício. Torna-se necessário arrancá-lo, subtraí-lo (o objeto), à estrutura arquitetónica que o contém e desenvolver as suas possibilidades para uma autonomia estética e formal. O objeto criado aspira à condição de obra de arte.

Na tensão entre as placas negras de cerâmica, que se depositam sobre a superfície laranja/vermelho, e o tijolo, nesse lugar que diríamos apenas formal (Arquitetura e Geometria, subsérie “Alvener”), parece emergir o discurso do simbólico. Já não será apenas a arquitetura, a forma. Do mundo do quotidiano cai sobre estes objetos, que se pretendiam simples, espartanos, a ideia de labor. A arquitetura, da qual se poderia dizer, em tese, reduzida à sua forma mais simples, o tijolo, é agora trabalho. O tijolo é símbolo, é um objeto que passa agora a incorporar uma narrativa que se desenvolve e complexifica e que adquire uma dimensão sociológica. A do homo faber.

Para as mesas de Morandi, série distinta da enunciada acima, tudo é diferente. Tendo surgido a partir do meu contacto prolongado, obsessivo, com a pintura de Giorgio Morandi, penetrou sub-repticiamente no meu inconsciente até que tomou conta do atelier. O barro estava assim obrigado a capturar o silêncio poético de Morandi, a atmosfera que permeava o seu quarto/atelier no seu recolhimento quase monástico. A cerâmica, nas minhas mãos de escultor, tinha agora a responsabilidade hermenêutica de encontrar a linguagem que não traísse Giorgio Morandi. 

As mesas cerâmicas tornam-se brancas. A textura na superfície das “mesas” é intuitiva e gestual, a escala resulta do contacto contínuo de três anos com imagens e textos acerca da obra do pintor italiano. As formas simples de garrafas, caixas, presentes nas composições pictóricas, pinturas e aguarelas, e a simplicidade espartana das composições, foram mantidas.

Mas nem todas as mesas são a reprodução em cerâmica das pinturas de Morandi. No processo cometo erros. As aguarelas e pinturas de Morandi, observadas por vezes a partir de imagens de má qualidade, ou simplesmente porque a própria pintura não deixa perceber o objeto representado com rigor, geram equívocos. O acidente é assumido, o erro permanece e faz agora parte da obra.. 

No entanto Morandi continua a ser silêncio e reclusão, como o barro, terra, material ubíquo mas simples e extraordinário. 

Texto de Miguel Meruje para o catálogo da exposição New Tiles Added de Carlos Ribeiro no Salão da BASE

No regresso ao Salão da BASE, Carlos Ribeiro reúne um conjunto de obras de diferentes linguagens e tonalidades, unidas pela mesma ponderação no tratamento das dimensões que concretiza. Destaca-se a formação geométrica, mas os trabalhos não tentam conquistar espaço ao espaço, sendo que o próprio plinto que sustém cada escultura é rasurado, numa escala que é rebaixada até ao chão, mas cujo mapeamento no espaço expositivo é fluído ao invés de se tornar numa malha predial labiríntica.

A referência arquitectónica é fulcral, nomeadamente no brutalismo, não só na rugosidade do barro como material, mas também pelo sentido unitário de cada bloco que busca transmitir. Esse formalismo não se cinge a um achatamento de formas megalómanas numa versão miniatura — são, sim, a personificação de algo humano traduzido para a geometria, acentuada pela sensibilidade que Carlos Ribeiro tem para pensar a sua produção em termos de tentativas para exibir a mesma ideia. ‘New Tiles Added’ acrescenta variações e abre caminhos que confluem nessa unidade macroscópica que o artista consegue pensar para a sua obra, partindo das minudências e das particularidades de cada obra, até depois as alinhar com a sua família alargada A rede que se estabelece existe num tempo suspenso, pois a peça antecessora de uma outra que agora se apresenta pode ter sido preterida por outra, que, aprimorada, é passível de se apresentar ao público; bem como o exercício contrário é uma possibilidade, onde recebemos a última tentativa de explorar determinada ideia, mas que na verdade foi a versão mais simplificada de todas as tentativas precursoras. Em ‘New Tiles Added’ temos uma obra viva em que o artista manifesta o seu próprio encantamento pelo processo, pela descoberta, e onde o contágio por essa continuidade é exultado pelo conjunto das diferentes obras que compõe esta retrospectiva.

O piscar de olhos para esse contínuo aperfeiçoamento da técnica, que no caso da matéria que Carlos Ribeiro trabalha é dada a imprevistos e acrescentos inusitados, surge pelo título plástico que apresenta, num somatório conjugado no pretérito imperfeito, ainda em aberto, e ainda aberto a outras adições e aos acasos da vida, hoje, amanhã, depois. Esse tempo é também necessário para distinguirmos as diferentes camadas que cobrem estas obras, feitas a partir de detalhes que buscam interagir com a luz, com os seus pares, dimensões e ritmos.

Mesmo depois de as pastas irem ao forno para se transformarem, o acompanhamento à herança que as próprias cores do barro carregam, denota associações que se podem fazer à utilidade de alguns materiais ou à sua aparente banalidade por se encontrarem em todo o tipo de construções.

Carlos Ribeiro trata de formas esculturais, num processo dinâmico de exploração, todavia assente num lado comunitário de ouvir as histórias, de perceber as intenções e impressões que quer passar pela sua arte. O pensamento de Carlos Ribeiro ancora na arquitectura, na geometria e no material — o barro, que provém do estaleiro para a construção civil e alia a obra de arte ao utilitário. Não obstante, o acaso é muito importante para o artista. Esse acaso, que advém da influência da luz nos materiais, na cor e nas formas, e que, por acidente ou imprevisto, gera com o seu ritmo, novas formas através das sombras e reflexos de outras formas que completamos.

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